quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Conto premiado: "UM DIA DIFERENTE".


Conheçam abaixo o conto premiado na Bienal de 2009, no Rio de Janeiro, que faz parte da coletânea de contos do livro CONTOS DE TODOS NÓS, da Editora Hama.

Um dia diferente

            Relógio desperta com o som agudo de costume.  Luciana acorda sobressaltada.  Levanta a cabeça.  Procura a origem daquele barulho ensurdecedor com os olhos apertadinhos de sono.  Sua mão começa a tatear os objetos da mesinha de cabeceira.  Enfim, o prazer.  Seus dedos sentem o botão salvador.  Apertam-no.  Alívio.  Fim da procura angustiante e início da tranqüilidade.  Luciana volta-se para o lado, enfia-se mais embaixo das cobertas, encolhidinha, com aquele ar de satisfação e preguiça.  Permanece assim por mais cinco minutos.  Novo despertar do relógio.  Desta vez não tem desculpa.  Olha a hora, pula da cama e corre até o banheiro.  A ducha fria a desperta por completo.  Volta ao quarto enrolada na toalha.  Procura um traje no guarda-roupa, que para sua surpresa está por demais organizado.  Fica pensativa. Começa a achar que algo estranho deve estar acontecendo.  A casa silenciosa.  O armário arrumado.  A mãe ainda não apareceu para apressá-la.  Decididamente, há algo errado.  Mas o que poderia ser?  Resolve investigar.
            Na cozinha, sua mãe, cantarolando uma canção antiga, prepara o café.  Está com ar de felicidade.  Luciana entra esbaforida, mas pára de repente, diante do inusitado da cena. 
            - Mãe, aconteceu alguma coisa? - pergunta.
A mãe, voltando para ela, lhe dá um carinhoso beijo na face, um bom-dia gentil e a manda sentar-se.  Luciana fica boquiaberta.
            - Mãe, o que está havendo?  Não vai trabalhar hoje? 
            - Claro que vou.  Só quero tomar meu café tranqüila, como sempre.
            - Sempre?! - surpreende-se Luciana. - A senhora nunca toma café, sai sempre correndo, nunca tem tempo...  -  Interrompe-se. - Quem arrumou meu armário?
            - Sua irmã.  Ela achou que você anda muito cansada...
            - Carla arrumou meu armário?!  Essa é boa!  Ela nem consegue arrumar o que é dela!
A mãe ignora o que Luciana diz e, sorrindo amigavelmente, lhe entrega um pratinho com um misto-quente.  Luciana olha o prato sem entender nada.
            - Que cara é essa, menina?  Não gosta mais de misto-quente?
            - Eu?!  Claro que gosto...  Mas é que...  A senhora nunca tem tempo de fazer...  E eu nunca tenho tempo de comer...  Estou sempre em cima da hora...
            - Luciana, que está havendo com você? Está doente?  Não pode ir trabalhar?  Vou ligar agora pro seu Alfredo e avisar que você não vai trabalhar hoje...
            - Imagina, mãe!  Seu Alfredo me põe no olho da rua!  Aquele intratável!
            - Não fala assim!  Uma pessoa tão boa!
            Luciana, preocupada com a esquisitice da situação, decide ir logo pro trabalho.  Nem come o sanduíche.  A mãe ainda tenta chamá-la.  Em vão.  Ela já ganhou a rua.

            As surpresas foram muitas para Luciana nesse começo de dia.  Primeiro o armário todo arrumado.  E pela irmã!  Depois o silêncio da casa...  Onde estaria o pai, sempre apressado e preocupado e a irmã, implicante e intrometida?  E a mãe, estranhamente tranqüila e bem-humorada?  O que teria acontecido?  Nunca a vira assim tão carinhosa e contente.  Nem no dia de pagamento!  Principalmente!  Porque logo lembrava de todas as contas e do pouco dinheiro que ganhava.  Era um baixo astral só.  O que a teria feito mudar de atitude?  “Será que ganhou na loteria?” - pensou Luciana.  Estava absorta em seus pensamentos, quando de repente percebeu que tudo estava diferente nas ruas também. 
            Não havia ninguém dormindo nas calçadas.  No sinal de trânsito, próximo ao ponto de ônibus, nenhuma criança oferecendo-se para lavar os pára-brisas ou vendendo balas.  Passou a reparar, então, nas pessoas ao seu redor.  Todos tinham expressão de felicidade, de paz.  De paz!  Essa era a palavra!  Paz!  Percebeu que a bolsa de uma mulher estava aberta.  Ela nem havia se dado conta.  Decidiu avisar.  A mulher olha Luciana completamente surpresa, como se tivesse ouvido uma asneira das grandes.  “Como alguém poderia se preocupar com uma bolsa aberta numa cidade tão tranqüila como o Rio de Janeiro?  Inadmissível!”  Luciana, constrangida, pede desculpas e se afasta, cada vez mais intrigada.  Será que ela estava sonhando?  Ou as pessoas tinham enlouquecido?  Mas o que dizer da ausência dos mendigos e dos pivetes, já tão integrados na paisagem da cidade?  Não encontrou nenhuma resposta para suas indagações.  Ao contrário.  As surpresas continuaram.
            Os ônibus passavam a toda hora e se não tinham lugar, também não estavam lotados como de costume.  Luciana, saindo do transe, decidiu-se por pegar um deles.  Logo ao entrar, estranhou a simpatia do cobrador, sorridente, dando bom-dia a todos. E o motorista?  Nossa, que cavalheiro!  Abria a porta da frente para todos os idosos e estudantes!  Sem reclamar!  Só arrancava depois da subida deles.  Tudo com muita tranqüilidade e, pode-se dizer, com profundo amor ao seu semelhante.  Amor até aos carros de passeio.  Tão odiados e ignorados antes.  Agora, com ultrapassagem garantida e segura por um dos maiores representantes do transporte coletivo.  E os motoristas ainda se cumprimentavam, como se fossem velhos amigos!  “Meu Deus!  Será que alienígenas me raptaram?  Criaram um mundo igualzinho ao meu só pra me enlouquecer!  Me confundir!” - questionava-se Luciana, sem entender o porquê de todos estarem tão fraternos, tão cheios de amor pelo próximo.

            No trabalho, as novidades continuaram.  Luciana trabalhava na seção de trocas de uma loja de eletrodomésticos.  Todos os dias as reclamações chegavam aos montes.  Os consumidores, insatisfeitos com os defeitos apresentados por seus aparelhos recém-comprados, ameaçavam denunciar ao Procon.  Mas hoje não.  Todos estavam compreensivos e educadíssimos.  Uma senhora dizia que a sua cafeteira, comprada há uma semana, não havia feito nenhum café.  Luciana, em princípio, disse que ela não devia estar sabendo manuseá-la.  A senhora, contudo, lhe explicou, educadamente, como funcionava a cafeteira.  Luciana culpou, então, as tomadas de eletricidade da casa da mulher.  Quando a senhora já estava, praticamente, convencida a trocar todas as tomadas de sua casa, o Senhor Alfredo, que observava, de longe, o desenrolar da situação aproximou-se e num gesto que surpreendeu Luciana, avisou a senhora que iria trocar a cafeteira.  A mulher agradeceu muito, principalmente, a Luciana pela atenção.  Seu Alfredo chamou, então, Luciana para conversar.  “Nem tudo está diferente hoje.  Lá vem bomba!’ - pensou.
            Logo que entrou, Luciana foi logo desculpando-se.
            - Seu Alfredo, me desculpe, mas eu estava cumprindo suas ordens, de só trocar em último caso...
            - Por que o nervosismo, Luciana?  Eu só queria saber como anda a faculdade?  Muitos trabalhos?  Tenho notado que você anda muito cansada...  Acho que está precisando de uma folga...
            - Folga?!  Mas mal podemos tirar férias!
            - Acho que você está estressada.  Essas normas são tão antigas...  Há tanto tempo que tudo mudou...  Você ainda era tão jovem...  Como pode se lembrar?...
            - Meu Deus!  O tempo passou e ninguém envelheceu!  Será que eles não perceberam?  Minha mãe, Carla, seu Alfredo...  Como podem ter se esquecido?  - pensou angustiada.
            Estava tão entretida com seus pensamentos, que nem se deu conta que estava voltando para casa, acompanhada de Tânia, uma colega do trabalho. 
            - O que eu estou fazendo aqui?
            - Seu Alfredo te mandou pra casa.  Achou que você não está muito bem.
            - E você?  Também não está? 
            - Ele mandou vir com você.  Ficou preocupado.
            - Mas logo você, que nem vai com a minha cara!
            - Eu?!  De onde tirou essa idéia?
Luciana altera-se.  Começa a gritar.  Tânia não sabe o que fazer.  As pessoas começam a olhar.  Isso enfurece ainda mais Luciana.
            - O que é?  Pensam que sou louca?  Vocês é que são?  Ou então querem me enlouquecer!  Alguém quer me internar!  E nem herança tenho!  Quem pode querer isso?!
            - Luciana, o que há com você? - pergunta Tânia, tentando segurar a colega, que se desvencilha gesticulando muito.
            - Me larga!  Essa louca quer me colocar numa camisa de força!  Me larga!  Me larga!

            De repente, Luciana pára de se debater.  Uma mão forte e masculina a segura com firmeza.  Ela está meio sonolenta.  Parece que desmaiou.  Não percebe de imediato o que acontece.  Ouve uma voz distante, de homem.  Não compreende suas palavras.  Ele a sacode.  Só aí Luciana recobra os sentidos.  Está dentro de um ônibus.  Um pivete, perto dos seus 16 anos, a ameaça apertando seu braço com uma das mãos e na outra mantém o canivete encostado no rosto dela.  Luciana desperta.
            - Como é que é?  Não adianta fingir que tá dormindo não!  Comigo não cola!  Vai passando o relógio e a grana!
            O ônibus dá uma freada.  O pivete quase perde o equilíbrio.  Fica irritado.  Aperta o cerco contra Luciana.
            - E aí?  Passa logo!  Se não te furo a cara!
            Luciana olha-o.  Dá um sorriso.  Tira o relógio, pega o dinheiro e entrega a ele contente.  Levanta-se.  Dá um beijo na sua face.  O pivete fica estarrecido.  Não se move.  Olha surpreso para ela, que observa as pessoas completamente feliz.
            - Obrigada!  Agora sei que não estou louca!  Estou em casa outra vez!  Tudo como antes!  Você é um anjo!  Obrigada por me trazer de volta a realidade!


Amigos leitores, em breve, publicarei contos e crônicas ainda inéditos. Aguardem!

10 comentários:

  1. Acho que eu li um livro que tinha este conto... Muito bom ! Tô ansioso para ler os inéditos !

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  2. Sim, tenho certeza que você leu! No livro CONTOS DE TODOS NÓS, da Editora Hama! Além do meu conto, o livro conta ainda com a participação de outros 19 autores. Vale a pena dar uma conferida.

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  3. Fátima, como sempre, maravilhoso!!! Eu e a Nick estamos ansiosas por mais novidades dessa incrível escritora: cheia de imaginação e energia positiva! é disso que precisamos no nosso dia a dia!!! Parabéns!Anna Cláudia

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  4. È, Fátima, isso prova que as pessoas já estão tão sem esperança que banalizaram a violência que passou a ser NORMAL. Isso com certeza é muito atual. Parabéns pelo conto tão bem escrito!
    Bjs Djanira Vilela

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    1. É verdade, Djanira, apesar do assunto ser tratado de forma leve, a questão é bem mais profunda do que parece. Obrigada por seu comentário e reflexão! Um grande abraço!

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  5. Nossa, fiquei com medo! Só não sei se é por causa da reação da menina ou do mundo em que ela voltou a viver! Gostei muito! Quero mais!

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    1. Obrigada, Celia, por seu comentário!!! Concordo com você, as situações apresentadas são assustadoras mesmo. Um grande abraço!

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  6. Uau, que barato, isso! A felicidade está dentro de nós! Somo nós que decidimos o que fazer com nossas vidas.

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    1. Sim, sempre, Julio Feijó! Um grande abraço!

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