sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

CRÔNICA DO DIA: VAIDADE OU PRIORIDADE?

Caminhava pela calçada de pedras portuguesas da avenida Marechal Floriano, pela manhã, bem cedo, quando um casal dormindo sob a marquise de uma das lojas chamou minha atenção. Indiferentes ao burburinho do dia que começava, eles dormiam profundamente. Cobertos até o pescoço, notei que a mulher havia deixado os pés para fora e era justamente isso que destacava-se naquele cenário tão comum em grandes centros urbanos como o Rio de Janeiro. Apesar dos pés sujos de quem anda descalço pela rua, suas unhas estavam pintadas. De azul. Acho que é uma das cores da moda atualmente. Acho. 

Com um impulso rápido e incontrolável, olhei minhas mãos. Unhas aparadas, curtas e... Sem esmalte! Imediatamente minha mente teceu indagações e considerações. "Com a correria do dia a dia, muitas vezes não sobra tempo de maiores cuidados conosco", justifiquei para mim mesma. Pintar as unhas, às vezes, é um luxo, que o serviço de casa não permite. A não ser que você não se importe em fazer as unhas hoje e amanhã já vê-las descascando. 

Mas os pés daquela mulher me incomodaram. Por que ela, que sequer possui um sapato, uma cama quente, um travesseiro cheiroso, limpo, um teto sobre a sua cabeça, roupas limpas, etc, pinta as unhas e eu não? Será que sou desleixada com a aparência, sou desprovida de vaidade? Não cuido de mim como toda mulher deve fazer? Será que sou uma mulher diferente? Será? Uma mulher meio menino, talvez. Não! Existem homens hoje em dia que também cuidam da aparência com esmero e dedicação. Não pode ser! Afinal, também gosto de andar cheirosa, limpa, cabelo tratado... Mas aqueles pés... Por que me incomodaram tanto?

Segui meu caminho lentamente com a cabeça absorta em tais pensamentos, sem conseguir chegar a nenhuma conclusão. A imagem daqueles pés de unhas coloridas não saía da minha cabeça. Aqueles pés sujos da sujeira da rua, descalços, mas com as unhas pintadas. E os meus... Calçados, quentinhos, limpinhos, protegidos... Mas as unhas sem esmalte ou base...

De repente, me veio a cabeça a palavra prioridade! Só pode ser isso! Cada um estabelece as suas de acordo com o que vive e acredita. Nossas vidas determinam nossas prioridades. Será? A única certeza que tenho é de que minhas prioridades são diferentes das daquela moça.  Só isso. Quem está certa? Eu? Ela? Quem sou eu para dizer...

18 comentários:

  1. Cada um da prioridade ao mais importante, talvez essa moça tenha achado o esmalte e resolveu pintar as unhas, mesmo com pés sujos.

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    1. Foi o que pensei, caro Anônimo. A vida dura nas ruas precisa ter algumas atenuantes e, talvez, essa moça tenha encontrado uma que a deixou, mesmo que por um instante, mais feliz.

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  2. Talvez não seja por prioridade, mas pela necessidade de lembrar de um outro momento da vida. Algo que a tire dali, mesmo que só naquele momento. Adorei! Bjs

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    1. Exatamente, Denis, foi o que respondi acima. Uma vida dura assim precisa de atenuantes e ela, talvez, tenha encontrado alguma que a deixou momentaneamente feliz.

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    1. Corrigindo: a palavra é passatempo.

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    2. Infinitas possibilidades, Valéria...

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    3. Fátima, eu corrigi a palavra que estava errada e você não retificou, por isso preferi remover o comentário.

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    4. Valéria, eu não tenho como editar os comentários, só publicar ou excluir. Não posso interferir no que escrevem. Como você excluiu o seu próprio comentário, ficou registrado apenas a sua retificação. Se puder, publique de novo o texto original já com a correção. Obrigada!

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  4. Texto bastante reflexivo ....prioridades de cada um...adorei bjs Elisangela Morais

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  5. Concordo com a Elisangela, temos ótimas reflexões, mas que seja uma prioridade que explica a complexidade do ser humano, oooo mundão !!! WP

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    1. Caro WP, refletir sempre, porém sem julgamentos antecipados, não é mesmo? Questionar sim. Por que não? Mas sem querer que as pessoas ajam e pensem como nós. Afinal, o ser humano é complexo, como você mesmo disse e cada um estabelece suas prioridades de acordo com o que vive, experimenta e acredita. Obrigada por seu comentário. Um grande abraço!

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  6. eseu texto, um dia pensei nisso mesmo sem ter visto essa moça e resolvi marcar manicure rapidamente, mas pensei será que vou me sentir mais feliz ou simplesmente prá fazer um protocolo. Saí da manicure me sentindo diferente, meu esposo logo notou e fez elogios. Atualmente tento pintar as unhas com mais frequencia, mas uso exatamente a prioridade. Se naquela semana tiver outras prioridades não faço e não deixo de me sentir mais ou menos feliz por isso. Aquela moça com certeza se sentiu mais feliz em ter tido o privilégio diante da situação em que vive em poder pintar suas unhas. Muito bom texto Fátima! Estava com saudades.....bjs

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    1. Pois é, Laiz, o importante é nos sentirmos bem com o que estamos fazendo, não é mesmo? Obrigada por seu comentário e pelo carinho. Um grande abraço!

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  7. Comovente... é como ela desse a si mesmo um pouco de alento, um pouco de beleza em meio a uma vida tão sofrida. Ela vive misturada ao lixo, percebe a repulsa de muitos que passam; mal tem o que comer o que vestir... mas há (ainda) resquícios de autoestima nela. E autoestima requer autoconsciência (ainda que torta, muitas vezes). O que para mim só torna tudo ainda mais comovente.

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    1. Pois é, Claudio, é comovente sim! E o mais curioso era o fato dela deixar justamente os pés de fora, apesar de estar coberta. Como se dissesse assim: "estou aqui nesta situação, mas eu me cuido viu?"
      Ou ainda: "estou aqui, mas não esqueço de mim mesma!"
      Obrigada por seu comentário. Um grande abraço!

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  8. Justamente, você concluiu muito bem nessa frase e verdadeira "estou aqui nesta situação, mas eu me cuido viu?"
    Ou ainda: "estou aqui, mas não esqueço de mim mesma!"
    É uma lição p/ muita gente que "deixa a vida me levar" e não se olha no espelho para acordar pra vida. bjs

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